Discurso de boas-vindas por
Beatrix Heintze em 24-9-03 em Berlim*


Senhora Embaixatriz, caras e caros colegas,

 

Gostaria de vos dar as boas-vindas ao nosso colóquio – em meu nome e no do Sr. Dr. Achim von Oppen que já de seguida irá dirigir-vos umas palavras em inglês.

Angola em Movimento – no dia de hoje, esta expressão pode até ser tomada à letra. Isto porque os angolanos e os estudiosos de Angola que aqui se encontram vieram de três continentes, o que faz com que o título principal deste colóquio, Vias de Transportes, Comunicação e Processos Históricos, adquira desde logo um significado especial: as ligações postais tradicionais dificilmente teriam permitido a realização de um encontro com uma participação internacional como esta. Só os novos meios de comunicação electrónicos possibilitaram esta “globalização”. Os meios de transporte por vós utilizados foram diversos. Espero que os caminhos percorridos tenham sido seguros, cómodos e sem grandes desvios imprevistos e a própria viagem sem privações! Posso portanto concluir descansada, que todos os obstáculos surgidos pelo caminho foram enfrentados com coragem. Espero agora que as consequências desse esforço se revelem gratificantes e enriquecedoras, se não a nível económico, pelo menos a nível científico e em termos de impressões e de troca de ideias. Em suma, pode dizer-se que a preparação do colóquio e a vossa viagem constituem só por si uma boa introdução ao tema do nosso encontro!

Lamentamos imenso que, para além do Prof. Dr. Ruy Duarte Carvalho e da Prof. Dr.ª Jill Dias outros dois participantes por nós convidados tenham sido forçados a desistir. O Prof. Dr. Jan Vansina por não poder deixar sozinha a sua mulher doente e a Dr.ª Catarina Madeira Santos por não ter quem ficasse com a filha pequena durante a sua ausência. Ambos porém prometeram enviar-nos as suas comunicações, uma das quais já foi distribuída. Temos ainda o prazer de anunciar que, nas pastas do colóquio se encontra um outro artigo sobre um tema aparentado, cujo autor, o sr. Jelmer Vos, também não pôde infelizmente estar presente neste encontro.

Qualquer viagem começa por ter um destino muito concreto. O nosso destino de hoje e dos próximos dois dias chama-se “Leibniz-Zentrum Moderner Orient” em Berlim. Gostaria de agradecer à senhora directora do Centro, a Prof. Dr.ª Ulrike Freitag e ao seu sub-director, o senhor Dr. Achim von Oppen, terem-nos permitido realizar o nosso encontro nesta casa tão bem situada. Quando há mais de um ano e meio tive a ideia de organizar este colóquio e me apercebi pouco depois da dificuldade de o realizar em Frankfurt, não podia imaginar o enorme interesse, apoio e disponibilidade com que viríamos a ser recebidos aqui. Esta recepção generosa e cordial constitui, a meu ver, um óptimo ponto de partida para um debate estimulante, sendo também um excelente cartão de visita para todos os que se encontram no nosso país pela primeira vez.

Lamentavelmente, nos dias de hoje as ideias e o empenhamento não são suficientes para que um projecto se realize. Também é necessário dinheiro e, no caso de projectos desta envergadura, mesmo muito dinheiro. Quero por isso agradecer – certamente em nome de todos – à Fundação Volkswagen pelo generoso apoio, sem o qual não teria sido possível realizar este encontro. Foi com especial satisfação que soube que esta fundação criou há pouco tempo um novo programa de apoios, intitulado Wissen für morgen – Kooperative Forschungsvorhaben im subsaharischen Afrika (Saber para o futuro – projectos de investigação cooperativos na África subsaariana), com o qual pretende, entre outros aspectos, “substituir a ‘investigação sobre’ que continua largamente difundida, por uma ‘investigação com’, ou seja, abrir caminho para uma investigação africano-alemã realizada em parceria” (Comunicado à imprensa 27-6-2003). Como este postulado corresponde a uma convicção que há anos me empenho em defender e que subjaz à concepção deste encontro e à proposta apresentada à fundação, encaro esta nova iniciativa de investigação, em larga medida, como confirmação das minhas persuasões.

Queremos ainda agradecer à embaixada da República de Angola ter-nos convidado para uma recepção nas suas instalações e ter tido a generosidade de disponibilizar um autocarro para o transporte dos participantes na quinta-feira à tarde.

Finalmente, gostaríamos de agradecer ao Ministério dos Negócios Estrangeiros ter-se prontificado a pagar as despesas de uma excursão pela cidade no sábado de manhã. Deste modo dá-se aos participantes, dos quais muitos estão na Alemanha pela primeira vez, a possibilidade de ficar a conhecer um pouco da nossa capital Berlim.

A investigação sobre as vias de transporte e comunicação concentrou-se até aqui sobretudo em aspectos de natureza económica, técnica e política. Continuam a escassear estudos sobre os seus efeitos sociais e culturais ao longo da História regional e supra-regional e, em especial, sobre a criação ou a transformação de espaços sociais, em sentido lato. Isto verifica-se muito especialmente em relação ao mundo não europeu. A referida escassez é particularmente notória no que respeita ao caso da África central ocidental de influência portuguesa, o que contrasta com a enorme importância desse aspecto que se mantém até hoje e que está patente nos trabalhos historiográficos existentes sobre essa região. Durante séculos, as vias de transporte e os processos de comunicação com elas relacionados marcaram profundamente a História de África em geral e a de Angola em particular. Das antigas migrações, passando pela era do comércio atlântico de longa distância (principalmente de escravos), até à guerra, ao “desenvolvimento” e à integração global no século XX, esses processos permitiram, por um lado ultrapassar fronteiras, mas por outro criaram novas barreiras.

As comunicações apresentadas neste colóquio analisarão o tema proposto a vários níveis e com uma profundidade dificilmente previsível aquando da concepção deste encontro. Os textos cobrem dois mil anos de História e em termos geográficos ultrapassam largamente a Angola actual, estendendo-se às regiões vizinhas e para além dos oceanos Atlântico e Índico. A nível temático, os trabalhos abordam tanto aspectos regionais como globais, apontam continuidades, transformações e rupturas e ocupam-se do desenvolvimento tecnológico, dos estímulos político-comerciais e de poder e dos seus efeitos. Eles englobam transferes e transformações materiais e em especial imateriais, contrastam centros e periferias, trocas lineares e circulares, movimentações determinadas e difusas. Também analisam percepções divergentes e uma pluralidade de estratégias e manipulações, remetem para barreiras concretas e psicológicas, relacionam custos e proveitos e ousam lançar um olhar em direcção ao futuro. Um dos objectivos dos nossos debates consistirá em articular as diversas abordagens e conhecimentos, de modo a formar uma visão multifacetada do conjunto.

A abundância e a multiplicidade das comunicações implicam que o nosso tempo tenha de ser contabilizado ao minuto, pelo que o nosso programa terá de ser seguido à risca. Para dar o exemplo, não prolongarei por mais tempo a minha introdução e passo a palavra ao meu co-organizador, colega e amigo Achim. Faço votos para que as horas que se seguem sejam estimulantes para todos nós e para que, apesar de certas barreiras linguísticas – aproveito para pedir que falem devagar e com clareza – não haja problemas de comunicação, quer em sentido literal, quer em sentido figurado!



*     Traduzido do alemão por Marina Santos.



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